Redesign de Plataforma Análise Heurística UX Research PV Operation · 2022–2023

Quando a usina sabe,
mas o sistema não conta

Uma plataforma construída por engenheiros sem designer. Todas as funcionalidades existiam — nenhuma estava organizada de uma forma que fazia sentido para quem usava. Fui o primeiro designer a tocar nesse produto, contratado como PJ para conduzir o redesign completo.

Empresa PV Operation
Período 2022–2023
Meu papel Product Designer (PJ)
Entregas Research · Heurística · Guia de Estilo · Protótipo
Quando a usina sabe, mas o sistema não conta — PV Operation
O insight central

Uma plataforma não é boa porque funciona. É boa porque o usuário consegue trabalhar com ela.

Todos os dados estavam lá. Toda a lógica estava correta. O problema era que a interface refletia a arquitetura do banco de dados — não o modelo mental de um técnico de campo às seis da manhã verificando se uma usina estava operando normalmente.

Primeiro designer numa plataforma de engenheiros

O mercado de energia solar brasileiro cresceu mais de 1,6 milhão de sistemas instalados. Por trás de cada instalação há uma plataforma de monitoramento — e na PV Operation, essa plataforma havia sido construída por engenheiros de software sem designers no time.

O resultado era previsível: uma plataforma que funcionava perfeitamente como sistema e funcionava mal como produto. A interface refletia a arquitetura do banco de dados, não o modelo mental de quem usa no dia a dia.

Cheguei como o primeiro designer a tocar nessa plataforma. Os meses que se seguiram foram sobre tentar mudar não só a interface, mas a forma como o time pensava sobre o produto — o que exigiu múltiplas rodadas de alinhamento com engenheiros que haviam construído o sistema e tinham perspectivas muito definidas sobre como ele deveria funcionar.

Oito entrevistas, quatro perfis completamente diferentes

Entrevistei oito pessoas que interagiam com a plataforma de formas completamente distintas. Não eram apenas perfis diferentes — eram modelos mentais diferentes sobre o que a plataforma deveria fazer por eles.

🔧
Técnicos de Campo
Precisam de diagnóstico rápido antes de chegar na usina. Cada minuto perdido navegando é dinheiro perdido.
💼
Proprietários
Não sabem o que é um inversor. Querem saber se o investimento está performando — em reais, não em kWh.
📊
Gestores
Precisam da visão consolidada de múltiplas usinas sem mergulhar nos dados de cada uma individualmente.
🖥️
Operadores
Monitoram múltiplas usinas simultaneamente. Velocidade de navegação e clareza de alertas são tudo.

Uma interface que servisse bem todos eles não poderia partir de nenhum perfil específico — precisava ser estruturada por intenção de uso, não por perfil de usuário.

Nomear os problemas antes de resolvê-los

Com os dados das entrevistas organizados em affinity map, conduzi uma análise heurística completa usando os dez princípios de Nielsen. O objetivo não era listar problemas — era priorizá-los por impacto real no trabalho dos usuários.

CRÍTICO
Visibilidade do Status
Um equipamento com problema não se distinguia visualmente de um operando normalmente sem atenção cuidadosa. Para um operador monitorando cinquenta usinas, isso era inaceitável.
CRÍTICO
Correspondência com o Mundo Real
A nomenclatura usava termos técnicos de engenharia elétrica onde termos operacionais seriam adequados. Informações apareciam como código de status numérico em vez de linguagem compreensível.
ALTO
Consistência e Padrões
Ações similares em seções diferentes funcionavam de formas diferentes. O usuário que aprendia como navegar em uma seção tinha que reaprender na outra.
ALTO
Responsividade
Técnicos de campo usam tablets e celulares em campo. A plataforma não funcionava em mobile — e esse era o caso de uso mais crítico em tempo real.

O trabalho invisível que garante consistência

A plataforma não tinha identidade visual — tinha estilos acumulados. Fontes que variavam por seção. Cores definidas por convenção de código, não por sistema visual. Ícones sem padrão.

Antes de qualquer tela de alta fidelidade, construí o guia de estilo do zero: tipografia com escala clara, paleta de cores com semântica definida — verde para normal, amarelo para atenção, vermelho para alerta crítico — ícones de um único sistema e componentes documentados com todos os estados.

Esse trabalho invisível é o que garante que o produto final pareça um produto e não uma coleção de telas. Um designer que pula essa etapa entrega telas bonitas que o time de desenvolvimento não consegue implementar de forma consistente.

Tipografia — Inter Bold e Regular com escala de tamanhos
Paleta de cores — Green, Blue e Grey com semântica definida
Ícones e ilustrações — sistema unificado com ilustrações isométricas

Múltiplas rodadas antes de fechar qualquer tela

Projetar numa plataforma construída por engenheiros sem designers exige um tipo específico de negociação. Para o time técnico, a lógica da interface seguia a lógica do sistema — mudar a interface significava sugerir que a lógica estava errada.

O trabalho de alinhamento foi em grande parte sobre mostrar que interface e sistema podem ter lógicas diferentes sem que um invalide o outro. Múltiplas rodadas de conversa, cada uma revelando um contexto técnico que eu não tinha antes e que precisava ser incorporado ao design.

Ao final, chegamos num produto que todos puderam defender. Não foi consenso imediato — foi resultado de processo.

Estrutura antes de estética

Com o guia de estilo estabelecido e os alinhamentos técnicos concluídos, desenvolvi wireframes detalhados para cada tela da nova plataforma. Esses wireframes passaram por múltiplas iterações com base no feedback dos alinhamentos — a estrutura de cada página precisava funcionar antes de receber cor e tipografia.

Análise e síntese — affinity map com dados das entrevistas e análise heurística
Antes e depois — Dashboard principal com novo sistema de status visual
Proposta além do escopo
O Painel de Economia
Durante a validação do protótipo com o cliente, identifiquei uma oportunidade que as entrevistas com proprietários haviam sinalizado mas que ninguém havia transformado em requisito: proprietários de usina não sabem exatamente quanto dinheiro a usina está economizando para eles. Sabem que economiza. Não sabem quanto, comparado com o que pagavam antes, projetado ao longo do tempo, com retorno do investimento visível. Propus o Painel de Economia — uma seção dedicada à visão financeira com ROI projetado, economia acumulada e comparativo de gastos. Não estava no escopo. Foi proposta minha. O cliente aprovou e o painel entrou no produto.

Implementado em produção

O redesign completo — nova arquitetura de informação, guia de estilo, wireframes e protótipo interativo — foi implementado na plataforma. A relação com o cliente se encerrou com a entrega, então não tenho dados de impacto pós-lançamento. O que tenho é o registro de uma plataforma que foi do caos de um sistema construído sem critério de usabilidade para algo navegável, consistente e responsivo.

Design final — plataforma PV Operation em alta fidelidade, múltiplas telas mobile
Nova Funcionalidade — Painel de Economia com ROI, payback e comparativo de gastos

Antes → Depois

Antes e depois — Dashboard principal
Antes e depois — Detalhe de usina
Antes e depois — Painel de operação
Antes e depois — Menu de navegação
Antes e depois — Login e cadastro

O que funcionou. O que custou.

O que funcionou

Identificar o Painel de Economia além do escopo foi a decisão mais impactante. Os proprietários de usina tinham uma dor financeira que nenhum requisito capturava — e o benchmarking e as entrevistas revelaram isso antes de qualquer tela ser desenhada.

O que custou

A validação foi feita com o cliente, não com usuários reais. Um cliente que conhece o produto profundamente não representa o técnico de campo que chega na plataforma sem contexto prévio. Esse gap ficou sem resposta.

O que eu faria diferente

Insistir em testes com usuários reais

Entrevistas remotas, testes assíncronos, sessões encaixadas na rotina de campo — existem formas de coletar feedback de usuários reais sem exigir que venham até você. A adaptação de metodologia é uma habilidade de designer, não uma justificativa para pular a validação.

Estabelecer métricas antes do lançamento

Quantos chamados de suporte por problema de navegação existiam antes? Quanto tempo um técnico levava para diagnosticar um problema à distância? Com esses números documentados, o impacto do redesign poderia ter sido medido — não apenas percebido.

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