Uma plataforma construída por engenheiros sem designer. Todas as funcionalidades existiam — nenhuma estava organizada de uma forma que fazia sentido para quem usava. Fui o primeiro designer a tocar nesse produto, contratado como PJ para conduzir o redesign completo.
Todos os dados estavam lá. Toda a lógica estava correta. O problema era que a interface refletia a arquitetura do banco de dados — não o modelo mental de um técnico de campo às seis da manhã verificando se uma usina estava operando normalmente.
O mercado de energia solar brasileiro cresceu mais de 1,6 milhão de sistemas instalados. Por trás de cada instalação há uma plataforma de monitoramento — e na PV Operation, essa plataforma havia sido construída por engenheiros de software sem designers no time.
O resultado era previsível: uma plataforma que funcionava perfeitamente como sistema e funcionava mal como produto. A interface refletia a arquitetura do banco de dados, não o modelo mental de quem usa no dia a dia.
Cheguei como o primeiro designer a tocar nessa plataforma. Os meses que se seguiram foram sobre tentar mudar não só a interface, mas a forma como o time pensava sobre o produto — o que exigiu múltiplas rodadas de alinhamento com engenheiros que haviam construído o sistema e tinham perspectivas muito definidas sobre como ele deveria funcionar.
Entrevistei oito pessoas que interagiam com a plataforma de formas completamente distintas. Não eram apenas perfis diferentes — eram modelos mentais diferentes sobre o que a plataforma deveria fazer por eles.
Uma interface que servisse bem todos eles não poderia partir de nenhum perfil específico — precisava ser estruturada por intenção de uso, não por perfil de usuário.
Com os dados das entrevistas organizados em affinity map, conduzi uma análise heurística completa usando os dez princípios de Nielsen. O objetivo não era listar problemas — era priorizá-los por impacto real no trabalho dos usuários.
A plataforma não tinha identidade visual — tinha estilos acumulados. Fontes que variavam por seção. Cores definidas por convenção de código, não por sistema visual. Ícones sem padrão.
Antes de qualquer tela de alta fidelidade, construí o guia de estilo do zero: tipografia com escala clara, paleta de cores com semântica definida — verde para normal, amarelo para atenção, vermelho para alerta crítico — ícones de um único sistema e componentes documentados com todos os estados.
Esse trabalho invisível é o que garante que o produto final pareça um produto e não uma coleção de telas. Um designer que pula essa etapa entrega telas bonitas que o time de desenvolvimento não consegue implementar de forma consistente.
Projetar numa plataforma construída por engenheiros sem designers exige um tipo específico de negociação. Para o time técnico, a lógica da interface seguia a lógica do sistema — mudar a interface significava sugerir que a lógica estava errada.
O trabalho de alinhamento foi em grande parte sobre mostrar que interface e sistema podem ter lógicas diferentes sem que um invalide o outro. Múltiplas rodadas de conversa, cada uma revelando um contexto técnico que eu não tinha antes e que precisava ser incorporado ao design.
Ao final, chegamos num produto que todos puderam defender. Não foi consenso imediato — foi resultado de processo.
Com o guia de estilo estabelecido e os alinhamentos técnicos concluídos, desenvolvi wireframes detalhados para cada tela da nova plataforma. Esses wireframes passaram por múltiplas iterações com base no feedback dos alinhamentos — a estrutura de cada página precisava funcionar antes de receber cor e tipografia.
O redesign completo — nova arquitetura de informação, guia de estilo, wireframes e protótipo interativo — foi implementado na plataforma. A relação com o cliente se encerrou com a entrega, então não tenho dados de impacto pós-lançamento. O que tenho é o registro de uma plataforma que foi do caos de um sistema construído sem critério de usabilidade para algo navegável, consistente e responsivo.
Antes → Depois
Identificar o Painel de Economia além do escopo foi a decisão mais impactante. Os proprietários de usina tinham uma dor financeira que nenhum requisito capturava — e o benchmarking e as entrevistas revelaram isso antes de qualquer tela ser desenhada.
A validação foi feita com o cliente, não com usuários reais. Um cliente que conhece o produto profundamente não representa o técnico de campo que chega na plataforma sem contexto prévio. Esse gap ficou sem resposta.
Entrevistas remotas, testes assíncronos, sessões encaixadas na rotina de campo — existem formas de coletar feedback de usuários reais sem exigir que venham até você. A adaptação de metodologia é uma habilidade de designer, não uma justificativa para pular a validação.
Quantos chamados de suporte por problema de navegação existiam antes? Quanto tempo um técnico levava para diagnosticar um problema à distância? Com esses números documentados, o impacto do redesign poderia ter sido medido — não apenas percebido.